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Verso e Reverso é uma publicação semestral da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. É um espaço digital gratuito e arbitrado que acolhe a produção intelectual qualificada sobre os problemas emergentes do campo da comunicação. E que pretende afirmar-se como um fórum aberto e interativo de diálogo entre todos os que se interessam pelas mídias em suas relações com a sociedade. |
Entraves para consolidação dos conceitos digitais
Introdução Um dos grandes entraves para o avanço de uma cultura online na produção e no consumo de notícias, via novas mídias digitais, é a falta de massa crítica para a consolidação de novos conceitos surgidos a partir da denominada "Revolução Digital". A massa crítica, nesse caso, se refere à capacidade de absorção pela sociedade de um novo meio de comunicação, tornando-o rentável, a ponto de se auto-sustentar, gerando absorção de conceitos e produtos. É bom ressaltar que este processo foi comum a todos os veículos de comunicação de massa. Se nos voltarmos para a história do rádio, por exemplo, veremos que ele começou no Brasil com as chamadas rádio-clubes, conduzidas então por amantes do veículo e que funcionavam como um clube, com acesso a poucos. Portanto, só com o passar dos anos o rádio passou a ser considerado um veículo para muitos, um veículo de comunicação de massas. Por esse processo também está passando a comunicação digital. As questões econômicas, como custo de computadores e conexões, até a falta de entendimento sobre como funciona o meio, estão atrasando o desenvolvimento de veículos digitais e limitando suas possibilidades de produção de conteúdo digital. Este período talvez seja importante para que exista o treinamento dos jornalistas e dos usuários, emergindo como uma pré-condição para o acesso com proveito das fontes no ciberespaço devido às particularidades das técnicas de apuração e das funções desempenhadas pelos diversos atores sociais nas redes telemáticas. Para desenvolver o trabalho jornalístico em um entorno cada vez mais amplo e complexo como o mundo digital, tanto o profissional quanto o usuário das redes telemáticas devem dominar técnicas adequadas para avaliar dados muito diversos, com valor desigual e propósitos distintos que cada cidadão pode publicar sem qualquer tipo de restrição prévia (Gonçalves, 2002). Filosoficamente, o novo programa USC´s Annenberg School for Communication (EUA) reconhece que não somente a indústria está se movendo, mas que os nossos leitores, telespectadores e usuários também, diz Michael Parks, antigo editor do Los Angeles Times, que agora é diretor da Annenberg School. Ele acredita que a indústria de mídia está lutando com as mudanças de hábitos dos consumidores de notícias. "Eles estão aumentando incrivelmente a obtenção de notícias via internet ou combinando ´velha´ mídia com a internet" (Outing, 2002). No mesmo artigo, Outing deixa em aberto uma questão muito importante: se os estudantes podem realmente se sobressair a contento nas tarefas para três mídias muito diferentes. "Isso não é muito para apenas um ser humano? Esse não é o ponto. Será raro ter um profissional com uma ótima atuação como repórter de um jornal impresso e ser um correspondente de TV." Também é necessário registrar que, quando um novo processo de produção de notícias é iniciado, há muitas dificuldades para equalizar problemas entre capital e trabalho. Isso quer dizer que, como não há parâmetros anteriormente definidos e consolidados, o capital, na maioria dos casos, força o trabalho a realizar tarefas que suplantam as que eram realizadas anteriormente, sem a implantação da tecnologia. Vianna (1992, p. 131), em sua pesquisa pioneira sobre a informatização da imprensa brasileira, cita na parte das entrevistas com os dirigentes de jornais impressos que eles acreditavam ser positiva a especialização de mão-de-obra como uma valorização do profissional, pois mudanças na estrutura ocupacional, dando autonomia aos jornalistas, aumentam, por outro lado, a satisfação pelo trabalho. A pesquisa aplicada aos jornalistas, no entanto, não demonstrou exatamente isso: os profissionais concordam que o computador oferece maiores recursos para o desenvolvimento do trabalho, mas revelam que há um controle maior por parte de seus dirigentes. Ao mesmo tempo, expressam que o aperfeiçoamento profissional agora cobrado é quase sempre dissociado da melhoria de salário. A habilidade para manipular o computador deve ser conseguida a qualquer custo, uma condição essencial para a manutenção do emprego (Vianna, 1992, p. 131). O artigo Tecnologias ainda não beneficiam jornalistas, de Everaldo Gouveia, no Jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, nº 177, de setembro de 1996, segue a mesma linha da pesquisa de Vianna (1992). O então presidente da entidade escreveu que as novas tecnologias utilizadas pela imprensa, na grande maioria dos casos, não estavam beneficiando o jornalista, em termos de condições de trabalho e de salário. Ao contrário de tendências verificadas em outros países, em vez de o trabalhador ganhar horas de descanso, propiciadas pelas novas tecnologias, no Brasil aumenta a sua carga de horário e trabalho. Com a utilização do computador, hoje considerado indispensável nas redações, há quem ache que essa máquina pode fazer jornal sem jornalistas. Na verdade, o fundamental é o trabalho do profissional. Sem ele é impossível fazer jornais, revistas, televisão e rádio - para ficar apenas na nossa seara (Gouveia, 1996). No ensino do jornalismo As críticas às faculdades de jornalismo no Brasil não são poucas. Mais recentemente, o caloroso debate sobre a necessidade do Provão nas instituições de ensino revelou que há muitos problemas a serem resolvidos, não só na parte de infra-estrutura física como na elaboração de grades curriculares, conteúdos programáticos e qualificação adequada dos docentes. Dentro do meio acadêmico há celeumas intermináveis. Entre elas, a função de um curso de jornalismo. Existe uma corrente que defende uma formação para o mercado, outra que pensa em formar para que se mude o mercado, ou ainda há quem defenda uma formação eminentemente humanística, além de outras correntes menores. Porém, é bom lembrar em que mundo comunicacional estamos. As transformações estão ocorrendo velozmente devido à fusão da informática com as telecomunicações no transporte do conteúdo informativo. Num mundo eletronicamente globalizado, onde textos e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente em torno do planeta através dos satélites e das fibras óticas, sendo "decodificadas" na outra ponta através das mais variáveis interfaces que tanto podem ser um minúsculo telefone celular, como uma enorme impressora de jornal comandada a distância, ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou um aparelho de rádio, pergunta-se qual o espaço que sobra, afinal, para o jornalista, para o profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso? (Campos, 2002). Entre o que está acontecendo no mundo real e o que é ensinado nos cursos de jornalismo há uma distância. Essa visão é corroborada por Campos (2001, p.3) em um artigo publicado no website do Observatório de Imprensa. O seu argumento se baseia na atração cada vez maior de alunos de jornalismo que desejam trabalhar com jornalismo online, apesar da cultura vigente ainda ser por práticas empregadas nos veículos tradicionais. Já no primeiro ano, os futuros comunicadores criam sites de jornalismo online e, antes do quarto ano, já estão trabalhando regularmente para algum portal de internet, o que, naturalmente, significa um novo desafio para o próprio sistema de ensino superior, principalmente na área pública onde o sucateamento das instalações nem sempre permite ao professor contar com os recursos de software disponíveis no mercado. Surge, então, um hiato entre ensino e aprendizado que precisa ser preenchido, inclusive através da requalificação e atualização profissionais (Campos, 2002). Esse fenômeno de distanciamento entre o ensino do jornalismo e o que é realizado no mercado, do desejo dos alunos e as grades curriculares, também é constatado pela professora e pesquisadora Elizabeth Saad no seu artigo sobre o jornalista na sociedade da informação. Um fato significativo que vemos adiante do cenário até aqui apresentado é a diferença de tempos e ritmos entre o que ocorre na universidade e o que ocorre no mercado. No caso da Internet essa diferença tornou-se imensa; exatamente pela rapidez com que as transformações estão ocorrendo e pela perspectiva de novas e contínuas transformações que estão por vir em ritmo cada vez mais acelerado (Corrêa, 1998). Acredito, portanto, que, com o advento da revolução digital, foram sepultadas algumas antigas discussões nesse campo, porém outras novas apareceram, até a propositura de quebras de paradigmas. Isso é tão forte que a questão do diploma para o exercício do jornalismo, uma luta histórica, está ficando em segundo plano, em função da velocidade das transformações no campo da comunicação pela introdução tecnológica. Dizard (1997) afirma que será indispensável aos jovens que ingressam no mercado de trabalho de mídia entender essas novas tecnologias, o quanto elas diferem das práticas antigas, como irão afetar nossas vidas, pessoal ou coletivamente, num novo tipo de sociedade da era da informação (1997, p. 23). Para que isso aconteça na prática, várias influências teóricas que sedimentaram conceitos em muitos profissionais do ensino do jornalismo precisam ser revistas ou no mínimo atualizadas, principalmente no caso da Escola de Frankfurt, bastante crítica quanto às questões tecnológicas no campo do ensino e estudo da comunicação. Uma nova tecnologia da comunicação como a internet permite aos acadêmicos repensarem, em vez de abandonarem, definições e categorias. Quando a internet é conceitualizada como um mass medium, o que se torna claro é que nem a massa nem o meio podem ser definidos precisamente para todas as situações, sendo antes continuamente rearticulados, dependendo da situação. A internet é um mass medium multifacetado, isto é, contém muitas configurações diferentes de comunicação (Morris e Ogan, 1996, p. 42). Para Straubhaar (2000, p. 15), ainda vivemos na época da clássica definição do processo de comunicação desenvolvido por Wilbor Schramm, tido como um dos fundadores dos estudos de comunicação de massas. Ele esmiuçou o processo de comunicação em oito componentes maiores para criar o que é conhecido como Source-Message-Channel-Receiver (SMCR). Esses e outros fatores desestimularam o estudo da internet como meio de comunicação de massa. No artigo The Internet as Mass Medium, publicado em 1996, as pesquisadoras Merrill Morris e Christine Ogan alertaram para a falta de interesse em estudar os fenômenos comunicacionais na internet. Segundo elas, apesar de a rede ter se tornado um meio de comunicação de massas, sendo mencionada, freqüentemente, nos meios tradicionais e ser utilizada cada vez mais, os pesquisadores quase a ignoram. Acrescentam que, se os investigadores continuarem a agir dessa forma, ignorando o potencial de pesquisa em torno da rede, as teorias que elaboram se tornarão menos úteis. O computador enquanto nova tecnologia da comunicação abre aos investigadores um espaço para repensarem as suas teses e categorias, e talvez mesmo para encontrarem novas perspectivas em relação às tecnologias tradicionais de comunicação (Morris e Ogan, 1996, p. 36). Bastos (2000, p. 33) identifica que os estudos na área de comunicação se organizaram à volta de um meio específico e os jornais têm suplantado em número as pesquisas o rádio e a televisão. Para o pesquisador português, "à medida que a tecnologia muda e os meios de comunicação convergem, como acontece no caso da internet, os teóricos têm de ser mais flexíveis quanto às suas categorias de investigação. Em parte, a internet passou-lhes ao lado por, no início, ter sido construída em âmbito restrito" (Bastos, 2000, p. 33). Francisco Ficarra, em artigo publicado sobre a pesquisa de comunicação na revista Chasqui, afirma que faz falta a orientação da bagagem da experiência teórica e prática do setor das comunicações sociais em direção aos conteúdos multimidiáticos, sejam de tipo "online" como de "offline". A qualidade do conteúdo é o grande mistério oculto das comunicações atuais, e é para aí que os planos de ensino e os futuros profissionais do setor deveriam direcionar suas principais áreas de interesse. Uma qualidade que, sem a teoria nos planos de ensino, é impossível alcançar (Ficarra, 2001). Revelando um cenário não muito animador, também no Brasil, Corrêa (1998) constatou que as universidades ainda estão na tentativa de transportar os jornais-laboratório para a web e fornecendo poucos recursos didáticos, como disciplinas introdutórias sobre informática, uso da internet e recursos multimídias. Para a pesquisadora, essa situação é insuficiente para as necessidades amplas apontadas pela sociedade digital. E também é claro que mudanças nas universidades dependem de variáveis muito distantes da urgência necessária (Corrêa, 1998). Contudo, toda essa demora em inserir conteúdos de mídia digital na aprendizagem e realizar pesquisas mais aprofundadas sobre os meios online, seja por desconhecimento ou por resistência teórica, está levando os cursos de jornalismo a serem meros reprodutores de procedimentos arcaicos e começarem a perder espaço para um conhecimento proveniente da prática, do empirismo. Eu não conheço muito sobre o caminho acadêmico, onde se poderia obter a graduação universitária em jornalismo e aspirar a um emprego como jornalista em uma publicação online. Esse não é o caminho que eu segui para minha carreira em jornalismo. O jornalismo permanece em um campo que está aberto a recém-chegados e estranhos ao meio - tudo que realmente precisa fazer é escrever o gênero que as publicações querem publicar. Pode-se aprender sozinho os conceitos básicos do jornalismo. Achar e ler livros que são usados habitualmente por principiantes nos cursos de jornalismo, para aprender sobre gêneros básicos produzidos pelo jornalismo e a técnica para que eles sejam produzidos. Os jornalistas online também podem aprender um pouco de elementos básicos de web: como usar a internet para pesquisar; básico de HTML para produzir páginas, produção de áudio e vídeo digital, além de técnicas de programação se quer adicionar elementos multimídia. Obviamente, é necessário desenvolver boas e básicas habilidades na escrita (Milisson, 1999). Percebendo que o caminho para a solidificação de conceitos e práticas da comunicação online pode, necessariamente, não passar por um banco de escola, empresas de comunicação já estão realizando cursos internos de treinamento, como acontece no Brasil, quando grupos de comunicação treinam jornalistas para a prática em veículos tradicionais. Steve Klein (in Ramadan, 2000), sócio do Advanced Interactive Media Group (empresa de serviços ao setor jornalístico) e professor de jornalismo, afirma que a demanda por talentos se tornará tão grande que as cadeias de jornais e companhias de novas mídias existentes terão que criar cursos de treinamento para candidatos a empregos que passarão parte maior de seu tempo na faculdade estudando tecnologia da informação. Nos próximos anos, à medida que a tecnologia e o jornalismo passarem a se entrelaçar de forma ainda mais estreita, será imperativo tomar medidas que garantam que haja pessoas suficientemente treinadas em ambas as disciplinas trabalhando nos serviços online. Tecnólogos competentes são difíceis de encontrar hoje, porque existe grande demanda por seu talento nesse momento de boom da internet. Tecnólogos capazes igualmente de trabalhar como jornalistas serão sempre um achado raro, de modo que as empresas jornalísticas deveriam criar programas para desenvolver esse tipo de talento (Klein in Ramadan, 2000, p. 147). A razão para que as empresas adotem tal procedimento é que a denominada Convergência de Mídias, na sociedade da informação, segundo Joseph Straubhaar e Robert La Rose, fará carreiras e empregos altamente voláteis, assim como as companhias se reestruturarão continuamente para competir numa escala global. Muitas pessoas que estão entrando no mercado de trabalho, hoje, têm quatro ou cinco carreiras - não somente empregos, mas carreiras - no futuro. Isso significa que o estudante que leva em consideração uma carreira profissional no jornalismo, publicidade ou televisão (ou ainda ciências da computação) eventualmente terá que ter novas ferramentas para diferentes profissões - ou junta-se ao ´have-nots´ na sua camada mais baixa da sociedade da informação (Straubhaar e Larose, 2000, p. 7). Ramadan (2000, p. 147), que defendeu a tese intitulada Jornalismo na Era Digital: construindo uma filosofia de Ensino, tem muitas perguntas sobre alguns possíveis desdobramentos para a área do ensino do jornalismo. Estamos aptos a enfrentar essa tarefa? Estamos abertos para refletir sobre nosso papel e para encarar o aprendizado como processo contínuo - agora em ritmo acelerado - junto com os estudantes? Somos capazes de compreender que o conhecimento também não se acumulará de forma linear? Aceitamos que a estrutura das escolas também não sustentará métodos e currículos lineares, restritos a um conhecimento específico? As formas de hierarquizar, registrar, armazenar e usar o conhecimento acumulado, como conhecemos até há uns poucos anos, estão se transformando. Se não buscarmos apoio na Filosofia da Educação, certamente não daremos conta dessas transformações (Ramadan, 2000, p. 147). Já Dizard (1997, p. 20-21) não tem a resposta para todas essas questões, porém afirma que para os estudantes que planejam uma carreira na mídia, as mudanças trazidas pelo mundo digital oferecem uma intrigante mistura de esperanças e dúvidas sobre suas opções, pois estão ingressando em um negócio - a produção e distribuição da informação - que se expande de maneira extraordinária. Ao se prepararem para carreiras na mídia, uma de suas poucas certezas é que irão lidar constantemente com os impactos de mudança tecnológica e com a demanda de envolvimento intelectual e habilidades acadêmicas maiores (Dizard, 1997, p. 21-22). Com certeza, uma das escolas mais avançadas no estudo e na pesquisa do jornalismo online é a USC´s Annenberg School for Communication (EUA). Por mais que no Brasil se diga que as realidades socioeconômicas entre Brasil e EUA são diametralmente opostas, fato constatado na comparação entre os PIBs (Produto Interno Bruto) dos dois países, não podemos ignorar as experiências e ensinamentos dos americanos nesse campo. Eles inventaram a internet e estão muito avançados na elaboração de produtos digitais, portanto, podemos aprender com os seus sucessos e erros. Segundo Outing (2002), a aproximação pela USC´s Annenberg School for Communication pode ser um novo olhar sobre o ensino do jornalismo. Isso é escapar da especialização que tem marcado o ensino do jornalismo por décadas. Para o editor da CNET.com, ao invés de produzir graduados que são adaptados somente para o jornalismo impresso, ou jornalismo TV e rádio, ou jornalismo online, ou profissionais de relações públicas, a escola pretende produzir graduados capazes de trabalhar numa plataforma cruzada. De preferência, o programa aponta para a transmissão de conceitos multi-plataforma que possibilitem ao jornalista trabalhar confortavelmente quando for solicitado em alguma coisa fora do seu dia-a-dia, como impresso ou repórter online que tem a tarefa, por exemplo, de realizar um vídeo clip para a transmissão na web (Outing, 2002). No Brasil, o desafio de se conseguir ensinar e pesquisar jornalismo online ultrapassa o entendimento da importância do assunto. É um compromisso que se encontra em poucas pessoas ou lugares. Um dos pesquisadores mais interessados e que contribui para a discussão do tema é o professor e jornalista Nilson Lage, da Universidade Federal de Santa Catarina. Com grande experiência profissional em mídias tradicionais, Nilson Lage tem migrado com facilidade para os conceitos das práticas digitais. Mesmo dizendo que não gosta de futurologia, ele indica que os cursos de jornalismo devem caminhar por trilhas definidas e seguras: incorporar, adaptar-se e contribuir para:
• desenvolver e viabilizar tecnologias de menor custo e maior eficiência, capazes de permitir a difusão do jornalismo pelos países do Terceiro Mundo, incluídos os da África, e sua interiorização, em nações como a nossa; Lage defende que parte substancial do ensino do jornalismo se faz, portanto, em laboratório, com pequenas turmas, utilizando o computador e seus periféricos como scanner e impressoras, além das ferramentas digitais como câmeras de vídeo e foto, conexão à internet e banco de dados. Somente nele, segundo o professor, é que se pode experimentar as novas técnicas e desenvolver pesquisas pioneiras. O professor, porém, sabe que, para ter resultados positivos com um programa desse tipo, é preciso uma pós-graduação específica, com linhas de financiamento à disposição da produção do conhecimento, da ciência, e "não sob controle dos grupelhos que atualmente partilham entre si as verbas públicas", como afirmou em sua palestra de abertura do 4º Fórum dos Professores de Jornalismo, Campo Grande. Outra pesquisadora, a professora Elizabeth Saad, também aponta novas tendências conceituais que mudam o perfil do ensino do jornalismo, pois, além das habilidades e conhecimentos tradicionais, a universidade deve incorporar novas habilidades no dia-a-dia do estudante.
. Uso de ferramentas para reportagens assistidas por computador; Para registro, mesmo com resistências, a pesquisa sobre o impacto da nova mídia tem sido estudada por alguns abnegados desde a sua chegada no Brasil. O trabalho de conclusão do Curso de Jornalismo da ECA/USP realizado pelo, então, aluno Helio Gurovitz é do segundo semestre de 1995. Intitulado O jornal sem papel: uma proposta de jornalismo para a internet, o trabalho é ousado, pois indica os "dez mandamentos" para colocar um website jornalístico na web. Entre eles destacamos: Adotarás um projeto gráfico. Válido até hoje o tal "mandamento" diz: É básico, mas sempre é bom lembrar. Todas as páginas do jornal devem ter a mesma cara graficamente, de modo a criar uma identidade a ser lembrada pelo leitor. Nas empresas jornalísticas As empresas jornalísticas brasileiras, dependendo do setor de mídia em que atuam, seguem legislações específicas, como no caso TV e rádio, que são concessões fornecidas pelo Estado. Já o meio jornal tem assegurado, pela sua função a serviço da educação, a importação de papel imprensa sem uma determinada carga de impostos. Já a internet não tem nenhum tipo de legislação específica na área de comunicação, só no campo das telecomunicações. Mas falar de empresas jornalísticas é falar, necessariamente, de um negócio como outro qualquer. A ilusão da função social dessas fábricas de notícias só é tema de discussão em alguns corredores dos cursos de jornalismo e comissões do Congresso Nacional. Na realidade, no mundo mercadológico, elas sobrevivem de receita e têm despesas. Em uma conta simples, o que sobra é o lucro. Dentro desse aspecto, descobrir qual é o modelo de negócio no mercado do consumo de notícias online está sendo quase uma nova "Corrida ao Ouro". Durante esses últimos anos, as empresas experimentaram vários tipos de projetos editoriais, poucos deram o resultado esperado e o temor de experiências fracassadas no passado ainda persiste. A pesquisadora Corrêa (1994) produziu uma tese de doutorado sobre as modificações nas estruturas das empresas jornalistas no que tange à produção e distribuição da informação. Ela cita um artigo publicado na revista americana da Editor & Publisher, especializada no mercado editorial: Nunca houve momento como esse na história da tecnologia: o momento em que o hardware e o software foram envolvidos no poder das idéias. E não é só isso, visões distorcidas no passado sobre o futuro produziram alguns cadáveres. As falhas - videotexto, acesso público, teletexto, acesso a cabo - conduziram alguns planejadores à falsa conclusão: eram boas para se ter, mas não eram a missão central (Corrêa, 1994). Muitos fatores contribuíram para os insucessos no meio online, porém o principal deles nunca é explicitado: a falta de uma cultura digital na estrutura organizacional das empresas de comunicação, tanto pelos proprietários quanto pelos empregados. Grande parte desses casos, no Brasil, aconteceu com grupos de comunicação que têm braços dos seus negócios na internet, como portais e websites. Eles cometeram o erro de tentar reproduzir suas práticas editoriais e comerciais empregadas nos veículos tradicionais, na web, contratando ou transferindo profissionais oriundos de outras mídias. A transferência de jornalistas de redações tradicionais para redações online não foi encarada de modo completamente pacífico no interior das empresas jornalísticas, quer sob o ponto de vista meramente organizativo, quer sob a vertente da prática jornalística. Alguns jornalistas da imprensa vêem os seus colegas online com uma mistura de suspeição ("Eles vão tornar-me obsoletos?"), ressentimento ("Eles vão descer os nossos padrões jornalísticos e gastar o dinheiro do nosso departamento de notícias?") e desdém ("O que eles estão a fazer é tecnologia, não jornalismo") (Bastos, 2000, p. 135). Um dos estudiosos que mencionam esse ponto é Bastos (2000, p.135). Para ele, o movimento provocado no interior das empresas em conseqüência do avanço do jornalismo digital suscitou abordagens de cunho sociológico, como a discussão para entender exatamente o que a internet significa para a profissão. "Editores e redatores discutem freqüentemente sobre a discórdia que caracteriza as relações entre jornalistas digitais e jornalistas das redações tradicionais dentro da mesma empresa" (Ibid., p. 135). A divergência sobre a internet revelou-se, mais visivelmente nas redações norte-americanas onde o mercado é bem maior, mas não foi um fenômeno isolado. Já o designer Mario Garcia, do Instituto Poynter e autor do primeiro livro sobre a transposição do planejamento gráfico dos jornais impressos para o design de interfaces gráficas de websites de conteúdo informativo, ficou surpreso com tal divergência. Talvez uma das grandes ironias do novo meio é como facilmente é mal entendido, especialmente pelos jornalistas da imprensa tradicional que tendem ver as páginas de web como "inimigas". Eu estou surpreso pelo número de jornalistas, especialmente aqueles entre 40 e 50 anos, que decidiram que não terão nada para fazer na web. Também encontro designers de impresso, os melhores nesse campo, que têm falhado em notar como eles poderiam ter um impacto nesse novo meio. Eu estou surpreso porque esses são os mesmos jornalistas que começaram a usar terminais de computador para editar nos anos 70, do século passado, e têm gasto muito do seu tempo à frente de uma tela de computador (Garcia, 1997, p. 9). As razões para tal comportamento dentro das redações são as mais diversas, como explica Bastos (2000, p.135). Entre elas estão a internet como ameaça para os jornais, se é um meio com expectativas de retorno duvidosas, se realmente interessa como meio de publicação jornalística ou se apenas constitui uma moda passageira. Porém, Outing (2001) não entra nessas questões, se elas são plausíveis ou não. O jornalista afirma que o problema consiste em mera adaptação ao novo meio. Os jornalistas mais jovens provavelmente se adaptarão mais facilmente do que os grisalhos veteranos. Os novos graduados em jornalismo freqüentemente treinaram como trabalhar bem notícias seja em ambientes da velha ou nova mídia, adaptando-se a rotinas de redação que requerem uma variedade de habilidades. Para os jornalistas mais antigos, as empresas precisam estabelecer um programa de treinamento (Outing, 2001). Um relato histórico, obtido pela pesquisadora Vianna (1992), na sua investigação sobre a informatização da imprensa brasileira, revela que essa transição não será fácil. O jornalista Cláudio Abramo, responsável pelo sucesso editorial da Folha de S. Paulo na segunda metade dos anos 80, é definitivo nesse ponto. Cláudio Abramo, conhecido como o homem que transformou a Folha de S. Paulo, enfatizou no depoimento à Vianna as perspectivas de desemprego na classe jornalística: "Para mim, o problema se coloca em vários níveis. Um de comportamento pessoal, outro de categoria profissional, de homem dentro da sociedade e por aí a fora. Eu, como profissional, sou contra bater uma coisa numa máquina, e que vai direto ao computador, porque isto tomará emprego de alguém. Mas, até aí, deve-se chegar a um acordo. Devo dizer, entretanto, que a maioria das pessoas que reage o faz por espírito conservador mesmo, e não por solidariedade a uma classe. Eu acho que a introdução do computador, hoje, se tornou indissociável da vida moderna. Você não pode mais tirá-lo. Pode até tirar o petróleo, mas o computador não" (Vianna, 1992, p. 129). NOTAS 1Prof.Dr. UniFiam/Faam - São Paulo REFERÊNCIAS BASTOS, H. 2000. Jornalismo Electrônico: internet reconfiguração de práticas nas redacções. Coimbra, Livraria Minerva. CAMPOS, P.C. 2001. Jornalismo Digital: Novos paradigmas de produção emissão e recepção do discurso. Website do Observatório da imprensa. Disponível em CORRÊA, E.S. 1998. O jornalista (brasileiro) na sociedade da informação. Revista de Comunicações e artes, (33). CORREA, E.S. 1994. Tecnologia, jornalismo e competitividade: o caso da Agência Estado. São Paulo, Tese de Doutorado, ECA/USP. DIZARD, W.Jr. 1997. A Nova Midia: a comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro, Jorge Zahar. FICARRA, F. 2001. Século XXI: o que as escolas de Comunicação devem ensinar? Revista Chasqui, (74), julho. GARCIA, R.M. 1997. Redesigning Print for the Web. EUA, Hayden Books. GUROVITZ, H. 1995. O jornal sem papel: uma proposta de jornalismo para a internet. São Paulo, Trabalho de conclusão de curso, ECA/USP. GONÇALVES, E.M. 2002. Changing concepts of time 50 anos depois ( a contribuição de Harold Innis para o estudo do jornalismo digital. In: Congresso Brasil-Canadá, promovido pela Intercom, set 2002. Disponível em www.facom.ufba.br/jol/doc/br_canada.doc, acessado em 30 de dezembro de 2002. GUROVITZ, H. 1995. O jornal sem papel: uma proposta de jornalismo para a internet. São Paulo, Trabalho de conclusão de curso, ECA/USP. LAGE, N. 2001. O ensino do jornalismo no século 21. Campo Grande. In: Palestra de abertura do 4º Forum dos Professores de Jornalismo, abril. MILLISON, D. Online Journalism FAQ. 1999. Disponível em MORRIS, M. e OGAN, C. 1996. The Internet as Mass Medium. Journal of Communication, 1(4). OUTING, S. Mixing old and new media. E&P Online. 31jan. 2001. Disponível em OUTING, S. 2002. USC J-School to teach convergence to all. EUA, Editor & Publisher. 27 mar. 2002. Disponível RAMADAN, N.N.A. 2000. Jornalismo na Era Digital: construindo uma filosofia de Ensino. São Paulo. Tese de Doutorado. Univerisdade de São Paulo - USP, 147 p. STRAUBHAAR, J. e LaROSE, R. 2000. Media Now: Communication Media in the Information Age. EUA, Wadsworth. VIANNA, R.P.A. 1992. Informatização da imprensa brasileira. São Paulo, Loyola.
Submetido em junho de 2004 – Aceito em julho de 2004
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